CEO do Hcor defende prova para médicos e cobra regulação de novas escolas
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- Além de 53 milhões de pessoas com plano de saúde, ou cerca de 25% da população-o país teria chegado a seu limite, na avaliação de Vieira.
- Vieira se une a outros participantes do setor ao defender um exame de proficiência semelhante ao da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
- Segundo Vieira, o hospital investe R$ 80 milhões por ano em projetos no setor público, divididos em quatro estruturas: assistencial, de ensino, de pesquisa e de gestão.
- Indústria diz que fim da taxa das blusinhas põe em risco 109 mil empregos e pede manutenção.
- Lula, Alcolumbre e Motta fecharam acordo para instalar comissão sobre a tributação na próxima terça (1º).
Recurso exclusivo para assinantes. Assine ou faça login. Flavia Lima Cláudia Collucci.
Diante da forte expansão dos cursos de medicina e de especialização, um dos grandes desafios do setor de saúde é garantir que o crescimento da oferta seja acompanhado também de qualidade, diz Julio Vieira, CEO do Hcor, hospital referência em cardiologia que faz 50 anos em 2026, conta com mais de 50 especialidades e 3.000 médicos.
"O Brasil passou por uma onda de criação de escolas, parte aprovada pelo MEC, parte entrando por força de liminar, com judicialização. Isso levou em algum momento à criação de escolas com uma qualidade inferior", diz ele.
Vieira se une a outros participantes do setor ao defender um exame de proficiência semelhante ao da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). "Sou a favor, acho que algumas profissões jamais deveriam ser exercidas sem que tenha um mínimo de formação", diz.
Uma medida provisória transformou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) em uma espécie de "OAB da Medicina", mas o uso da prova na aplicação de sanções a cursos é discutido na Justiça. O Enamed também já produz uma nota individual para cada concluinte de medicina, mas não há, por exemplo, nota de corte nacional definida.
Em entrevista ao programa C-Level, Vieira diz que é preciso pensar em uma regulação das novas escolas e defende, além da prova para os novos entrantes, uma revalidação periódica. "Como é que a gente garante que o profissional que foi formado 30 anos atrás tem realmente qualidade para atender o serviço que está prestando?"
O problema, afirma, é que a falta de qualificação coexiste com a falta de mão de obra. "O excesso de qualificação reduz a entrada de profissionais no mercado, e a gente piora o quadro de vazio assistencial."
Outra preocupação crescente dos hospitais, diz Vieira, é a dificuldade de conseguir mão de obra para atividades de apoio, como recepcionistas, limpeza e call center.
"Tivemos nos últimos anos aumento do índice de absenteísmo grave nos hospitais, o turnover tem aumentado. Uma parte da população que simplesmente opta por ir para um segmento da sociedade com mais informalidade, mas que tem um outro tipo de modelo de trabalho", diz Vieira.
Sobre outro ponto de atenção compartilhado por vários participantes do setor -a falta de alinhamento no segmento-, Vieira diz que que a relação entre hospitais e operadoras de saúde ficou muito mais próxima nos últimos anos.
Se antes, diz Vieira, ao realizar uma cirurgia de joelho, pagava-se pelos serviços prestados-"se um paciente fez um exame, pago um exame, se fez dez, pago por dez"-, atualmente fecha-se um pacote com um valor pré-determinado. Em sua avaliação, isso faz com que o risco seja compartilhado pela cadeia toda: a operadora que paga um valor fixo, o segurado que sabe quanto vai consumir, e o hospital, quanto vai receber pelo serviço.
Esse alinhamento, no entanto, ainda não se estendeu à indústria farmacêutica, que apresenta medicamentos muitas vezes em fase de testes, sem que o desfecho seja totalmente conhecido.
Vieira explica que, em algums modelos, o pagamento pelo medicamento só é feito se ele, de fato, gerar benefício esperado para o paciente. "Só que isso ainda é muito inicial, a gente precisa pensar em modelos mais estruturantes."
Após uma alta de 7% no ano passado, a receita do Hcor deve crescer de 7% a 10% em 2026, com até R$ 130 milhões em investimentos previstos, ante R$ 120 milhões em 2025, e uma média de R$ 30 milhões por ano antes da pandemia.
"Temos um desafio a ser resolvido, estamos com o hospital muito cheio." Diante disso, o Hcor vem ampliando unidades de negócio, UTIs e estrutura de medicina diagnóstica. Além disso, diz o executivo, há forte investimento na estrutura de radioterapia e na área de infusão.
Em um cenário de custos crescentes, envelhecimento da população e maior demanda por tecnologias sofisticadas, como manter a sustentabilidade de um hospital de alta complexidade sem comprometer a qualidade da assistência?
Para isso, diz Vieira, tecnologia de ponta é crucial. O uso da inteligência artificial, diz, é espalhado na gestão de leitos e na avaliação de exames laboratoriais. "A decisão sempre será do médico, mas a gente já consegue dar isso para ele de uma forma muito mais rápida, com mais qualidade, com mais acuracidade."
Notably, a IA também é usada em estudos e pesquisas, acumulando dados a partir dos quais é possível prever tendências de doenças ou possíveis problemas em cirurgias.
Questionado se vê espaço para uma integração maior na assistência, na pesquisa e na formação que envolvem o setor público e o privado, Vieira diz que há hoje no Brasil cerca de 6.000 hospitais-2.800 públicos, 2.000 privados e 1.800 hospitais filantrópicos. Além de 53 milhões de pessoas com plano de saúde, ou cerca de 25% da população-o país teria chegado a seu limite, na avaliação de Vieira.
"Ou seja, você tem um número da população muito pequeno que acessa basicamente o mesmo número de hospitais que o triplo da população que está acessando no SUS. É por isso que o SUS está de alguma forma com uma sobrecarga toda."
O Hcor é um hospital filantrópico, o que significa dizer que parte dos valores que seriam recolhidos em alguns impostos é reinvestido no SUS, em projetos definidos pelo Ministério da Saúde.
Segundo Vieira, o hospital investe R$ 80 milhões por ano em projetos no setor público, divididos em quatro estruturas: assistencial, de ensino, de pesquisa e de gestão. Seis milhões de pessoas foram atendidas no último triênio. "Não são hospitais com porta aberta para atendimento ao SUS, são programas específicos."
Um exemplo, diz, é o atendimento via telemedicina para pacientes com problemas cardíacos, por meio de apoio a médicos do sistema público. Desde que o programa foi criado, o Hcor já emitiu mais de 8 milhões de laudos.
Olhando para frente, Vieira diz a manutenção da receita e da competitividade no mercado sempre serão um desafio. "A pressão por custos é uma discussão crescente", diz.
Sob risco, no entanto, estarão os hospitais cujos desafios não se concentram apenas na sustentabilidade, mas também qualidade, afirma.
"Eu vou estar protegido se de fato o cliente me quiser. Se o cliente me quiser, de alguma forma eu consigo sentar na mesa para negociar quais são as condições necessárias para que eu possa fazer parte do jogo."
Fundação: 1976 (50 anos em 2026) Sede: Complexo Paraíso Presença: Concentrada na cidade de São Paulo Atendimentos: em 2025 foram 86 mil pacientes-dia, 54.709 atendimentos no pronto-socorro e mais de 4 milhões de exames realizados Receita líquida: R$ 1, 3 bilhão Lucro líquido: EBITDA de R$ 103, 7 milhões, crescimento de 14% Funcionários: 4.000 colaboradores Principais concorrentes: Einstein Hospital Israelita, Sírio Libanês, Oswaldo Cruz. Leia tudo sobre o tema e siga. Recurso exclusivo para assinantes. Assine ou faça login.
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